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Outros tempos

Luis Fernando Verissimo

Um padre, um rabino e um muçulmano ficaram presos num elevador. Depois de alguns minutos de silêncio constrangido, o padre disso:

- Em outros tempos, isto daria uma anedota...

Os outros dois concordaram com a cabeça. Em outros tempos... Os três suspiraram juntos. Dali a pouco, o elevador voltou a funcionar.

flor

O Air Force One, o avião presidencial americano, caiu no meio da jângal e o único sobrevivente – justamente o presidente Bush – foi capturado por nativos.

Levaram Bush para sua aldeia, onde ele foi amarrado a uma estaca. Os nativos o rodearam e não paravam de falar. Bush não entendia a língua deles mas era fácil deduzir o que diziam. Quando, no fim da conversa, começaram a fazer uma fogueira e a prepara-lo para ser assado. Bush teve a certeza de que sua interpretação estava certa. Eram canibais. Iriam comê-lo. Nada que dissesse conseguiria dissuadi-los. Primeiro, porque não o entenderiam. Segundo, porque de nada adiantaria saberem que ele era o presidente poderoso de um país poderoso. Aqueles selvagens não sabiam nada do mundo fora da sua jângal.

A seguir, o que os nativos diziam, o que Bush deduzia que eles diziam, e o que eles realmente diziam.

- Buksuana m’bal mngio amai paionol pt aa’mladu ium m’pasam.
(Grande homem branco saiu de dentro de grande pássaro de asa quebrada).
(Tem certeza que é ele? Sempre pensei que ele fosse mais baixo).

- Ascamodtpi m’oft urudwi’m-pas mglto cnn.
(Grande homem branco caiu do céu para nós.)
(Claro que é ele. Você não vê a CNN?)

- Quak urmnum m’bat. Xommla smatax ekst umaamos.
(O grande deus Trovão nos mandou comida. É um presente.)
(E agora, o que fazemos com ele? Devolvemos aos Estados Unidos?)

- Crwo mimla. M’batmq batang tu.
(E ele parece muito gostoso.)
(Tá doido? Não podemos fazer isso.)

- Octins balbida m’mmmm.
(Uma das coxas é minha. Mmmmm...)
(Vamos mata-lo.)

- Mblruda crakot’n.
(Acendam a fogueira.)
(Acendam a fogueira.)

- Crakot’n crakot’n hon paitu.
(Chamem as crianças, vai começar a festa.)
(Fogueira? Pra que fogueira?)

- Amnia’ack urumq opfrkl m’baoprt.
(Depois agradeceremos ao grande deus Trovão.)
(Vamos ter que assá-lo e comê-lo, para não deixar vestígios.)

- Urumq ptui naga-naga.
(Vai ser uma grande festa!)
(Comê-lo?! Ieck! Eu não!)

- Watan’mab arras mambak.
(Tragam a salmoura e as saladas.)
(Precisamos fazer esse sacrifício pela humanidade.)

flor

Aliás, dizem que o próximo filme do Mel Gibson vai er sobre a Joana D’Arc – mas só a parte final, do começo do cozimento até ela ficar pronta. Outro sucesso garantido entre o público religioso.

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Li que descobriram um papagaio que era do Winston Churchill, e que ele continua xingando o Hitler. Aparentemente, os papagaios são mais longevos do que os homens e este teria mais de 100 anos. Tentaram entrevista-lo para saber alguma coisa sobre a intimidade do primeiro-ministro que liderou a resistência britânica aos nazistas, na II Guerra Mundial, mas se o papagaio sabia alguma coisa, não quis falar. Talvez não se lembre de mais nada. Talvez só continue xingando o Hitler por reflexo condicionado: são as únicas palavras que guardou do seu convívio com Churchill. Papagaios velhos não aprendem novas falas. Por isso não se ouvem mais anedotas de papagaios. Seus protagonistas não têm mais idade ou ânimo para figurar em anedotas. Ficaram obsoletos, desatualizados e sem graça – ou o mundo é que perdeu a graça para eles.

Deveriam ter insistido com o papagaio do Churchill. É possível que ele acabasse falando sobre as suas experiências durante a guerra, reuniões secretas em Downing Street e se era verdade o que contavam do primeiro-ministro, seus charutos e as estagiárias. O que ele nos diria?

- Aposto que suas frases sobre o Hitler divertiam todo o mundo.

- Era o meu número de maior sucesso.

- As frases não se aplicavam ao Stalin também?

- Não! O Stalin era nosso aliado.

- Você não pensou em adaptá-las para os tempos modernos?

- Não há mais vilões como Hitler...

- E o Saddam Hussein? E o Bin Laden?

- É. Não sei. Eu é que não me atualizei. Depois que o Winnie morreu me venderam para um pároco no interior da Inglaterra. A coisa mais excitante que acontecia no lugar era as folhas amarelecerem, no outono. E eu estava acostumado à agitação de Londres. Viagens a Malta e Potzdam para reuniões de cúpula. Sessões de emergência do gabinete. Eu dava palpites sobre estratégia, sobre tudo. Nenhum foi aproveitado, claro. Mas participei. E minhas diatribes contra Hitler ajudavam a manter o espirito de guerra. Winnie adorava. Sinto falta do velho patife...

- Churchill?

- Cof, cof. Ele também. Mas principalmente de Hitler. Hoje meus vilões são a velhice e a umidade. E esta maldita tosse. E ninguém acha engraçado.


Domingo, 28 de março de 2004.



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